Jul 04 2007

Estrela da Vida Inteira

Autor: Marcos Dell Antonio - Categorias: Uncategorized

“O que o autor quis dizer?”

Está é uma das perguntas mais comuns ao se ler e tentar compreender um poema. A análise de poemas requer a compreensão de que as mais variadas leituras podem ser válidas.

O poeta se distancia ou se aproxima de si mesmo. O eu-lírico pode assumir características muito semelhantes às do autor ou então pensar de forma completamente contrária. Esta nova personalidade que o autor tem a possibilidade de assumir pode viajar por onde o poeta apenas viajou por leituras, pode ser alguém que o autor gostaria de ter sido ou até viver situações que este gostaria de ter vivido.

Manuel Bandeira, grande poeta brasileiro, aproxima muito a caracterização de seu eu-lírico com a sua vida pessoal. Suas poesias falam muito de vida e de morte, de experiências cotidianas. Muitas antíteses, muitas tristezas, muitos amores. Isto devido a sua vida em espera da morte. Por ser tísico, a qualquer momento poderia falecer, apesar de ter vivido mais de 80 anos. Transparecia sua tristeza em suas poesias.

Estrela da Vida Inteira é a reunião de poesias completas de Bandeira. Nesta obra observamos os mais variados sentimentos que podem ser vividos por qualquer pessoa, o que levava o autor a se auto-caracterizar “poeta menor” (das coisas simples, das coisas cotidianas).

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É comum na obra de Bandeira a utilização de expressões e palavras do cotidiano. Os temas são basicamente o amor, a simplicidade e a morte. A frustração e a felicidade provisória, que fazem com que o eu-lírico viaje e viva situações que o autor declarava abertamente não poder ter vivido devido a sua enfermidade, também são muito presentes na obra. O eu-lírico pode em muitas passagens ser confundido com o próprio autor, principalmente relacionado com a frustração.

O poema Testamento retrata as principais características de Bandeira (morte, tristeza e frustração). Um poema muito importante e que aponta muitas características que levam o leitor à confusão em relação a autor e eu-lírico. A menção a não ter tido filhos, o desejo de ter sido arquiteto, a auto-caracterização de poeta menor, a menção da doença e outras características. Criou-me desde eu menino,/ Para arquiteto meu pai / Foi-se-me um dia a saúde… / Fiz-me arquiteto? Não pude! / Sou poeta menor, perdoai!

Destaco também o poema Desencanto, um metapoema que seleciona o tipo de leitor a quem é dirigido. Em uma estrutura diferente, o último verso da última estrofe é separado (destacado) do resto do poema, possibilitando a leitura de que este verso representa a morte, o fim. O ritmo deste poema marca também grande angústia, leitura pesada, dolorosa. E nestes versos de angústia rouca / Assim dos lábios a vida corre, / Deixando um acre sabor na boca. / - Eu faço versos como quem morre.

E com esta simplicidade, cheia de requinte, Bandeira envolve o leitor a partir de seus desejos, seus medos, seus anseios, reduzindo todas as coisas da vida em nível essencial.

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